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Transtornos de Ansiedade na Quarentena

  • Foto do escritor: Maíra Matos Costa
    Maíra Matos Costa
  • 15 de jun. de 2020
  • 8 min de leitura

Atualizado: 16 de jun. de 2020


Quem não está tendo reações de ansiedade nessa situação de pandemia pode se considerar privilegiado sim! Afinal, talvez essa seja a situação mais atípica que vamos viver ao longo de todas as nossas vidas.

O que é ansiedade?

Ansiedade é um estado emocional desconfortável, que a gente sente quando situações ruins estão para acontecer. É como se a gente conseguisse prever o futuro de acordo com os sinais do presente, então, nosso corpo fica em estado de alerta, se preparando para o que virá. Tal reação guarda relação com outra emoção – o medo – pois compartilham do mesmo tipo de respostas fisiológicas (Zamignani e Banaco, 2009).


De acordo com Bravin e de-Farias (2010), a ansiedade envolve comportamentos respondentes (involuntários) tais como, taquicardia, sudorese, tremores, pupila dilatada, contração muscular, hiperventilação, entre outros; e comportamentos operantes, como fuga ou esquiva de situações aversivas. Biologicamente falando, tais respostas foram selecionadas ao longo da nossa história evolutiva a fim de garantir a nossa sobrevivência. Por isso, todo mundo sente ansiedade em algum momento da vida, afinal, são respostas naturais de animais sencientes e adaptativos.


Mas é quando ela se torna muito recorrente ou surge em situações incomuns, que tal reação pode representar um transtorno. O problema, é que muitas vezes não existe um risco real, e nossas reações emocionais são consideradas desproporcionais ao contexto. Com isso, sentimos um grande sofrimento e temos consequências negativas em nossas vidas por causa de certos comportamentos ansiosos (Fugioka e de-Farias, 2010).


Alguns padrões inadequados de resposta que costumam aparecer associado a este estado interno de ansiedade são:

1) Redução da eficiência no trabalho (comprometimento das atividades diárias, dificuldade de concentração);

2) Reações de fuga e esquiva de situações ansiogênicas (as quais tomam grande parte do dia);

3) Estado de sofrimento;

4) Pensamentos excessivos;

5) Crises de pânico (sufocamento, sensação de morte);

6) Fobias.


Como os transtornos de ansiedade acontecem?



Para compreender os transtornos de ansiedade precisamos não apenas olhar para o que acontece dentro do organismo (respostas), mas também para o que acontece fora dele (ambiente). Afinal, é nessa relação organismo-ambiente que aprendemos a identificar sinais de alerta de possíveis perigos.

Quando passamos por alguma situação ruim como, ficar preso no elevador ou bater o carro, por exemplo, nosso organismo reage de forma tensa e involuntariamente apresenta padrões que nos ajudarão a estar atentos e, assim, sobreviver a um possível risco de morte. Tais situações eliciam respostas emocionais de medo, que, por sua vez, são muito desagradáveis.

Então, muitos dos estímulos que estavam presentes naquele momento traumático, passam a servir de sinais de que aquela situação ocorrerá novamente. Com isso, nosso organismo se prepara para fugir do perigo mais uma vez, respondendo com ansiedade.

Por exemplo, após uma situação traumática com algum dos eventos citados acima, só a presença de um elevador ou de uma pessoa dirigindo de forma irresponsável, seriam capazes de eliciar tensão muscular, sudorese e taquicardia. A esse processo damos o nome de condicionamento respondente (aprendizagem de emoções). Além disso, respostas operantes como fugir de um passeio de carro ou optar por subir os andares de um prédio pelas escadas passam a ser mais prováveis (fuga e esquiva), o que chamamos de condicionamento operante (Skinner 1953/2007).


Por que sinto ansiedade na quarentena?



Vamos dar uma olhada em como está nosso ambiente, no geral, em situação de pandemia:


1) Demandas dos filhos, da casa, do trabalho remoto (e/ou faculdade online) ao mesmo tempo;

2) Contas por vencer, dívidas e uma considerável redução salarial ou desemprego;

3) Crise na política, na economia e na saúde, sem previsão de término ou de solução;

4) Isolamento social, convivência excessiva com familiares, brigas conjugais/familiares;

5) Privação de lazer, de esportes e de entretenimento externos;

6) Excesso de telas e de mídia digitais;

7) Ausência de rotina e ócio;

8) Familiares/amigos contaminados pela covid-19, morte de pessoas próximas, risco constante de contágio pelo novo corona vírus.


Diante de um contexto tão conturbado, é mais do que natural que nosso organismo responda com ansiedade, não é mesmo? Estes são alguns dos fatores comuns que tenho conseguido identificar em meu trabalho na clínica. Para muita gente, essas respostas ansiosas têm sido frequentes durante o isolamento. Principalmente, em se tratando de profissionais dos serviços essenciais, que estão todos os dias batalhando na linha de frente do combate ao covid-19.

Parece que, ultimamente, essa sensação de tensão constante não tem hora para acabar e, com isso, desenvolvemos padrões de comportamento que nos trazem consequências ruins, causadoras de extremo sofrimento. Afinal, como dormir se o salário reduziu, mas os boletos ainda chegam normalmente?


Não raro, escuto relatos de profissionais da saúde que tem ataques de pânico diários, agorafobia (medo de sair sozinho em locais públicos), medo de ir trabalhar, sonhos com a morte. Em casa, a convivência com familiares se tornou um desafio. As crianças sofrem muito com a ausência de rotina e a privação dos amigos, e muitas vezes desenvolvem padrões como: compulsão alimentar, vício em mídias digitais, depressão, enurese noturna (fazer xixi na cama) e diferentes medos. Uma situação realmente desesperadora nos leva a buscar o desenvolvimento de inúmeras habilidades ao mesmo tempo.


O que podemos fazer para lidar com a ansiedade nesse contexto?


O papel da psicoterapia online


Cada realidade é única e cada pessoa desenvolve comportamentos de forma específica em seu próprio contexto. Para lidar com esses transtornos ansiosos é necessário identificar os principais gatilhos que disparam as crises de ansiedade. A psicoterapia disponibiliza ferramentas para que a gente consiga entender esse ambiente e desenvolver habilidades para alterá-lo, o que chamamos de contracontrole (Skinner, 1953/2007).


Quando entendemos os estímulos que eliciam respostas emocionais negativas em nosso organismo, podemos desenvolver habilidades que eliminam estes estímulos e, também, desenvolver aquilo que Batista e Tourinho (2012) chamam de autocontrole emocional.

Dizemos que a pessoa é autocontrolada quando ela “manipula variáveis de forma a tornar prováveis a emissão de uma resposta antes pouco provável” (...) “Sob o enfoque analítico-comportamental, o autocontrole requer autoconhecimento. Se o sujeito não conhece as variáveis das quais seu comportamento é função, não conseguirá manipulá-las” (Batista e Tourinho, 2012, p. 257).


Tratamento

A seguir apresento um vídeo explicativo sobre contingências de ansiedade e algumas dicas para lidar com essas situações:



Transtorno de Pânico e Hiperventilação

Segundo Pezzato, Brandão e Oshiro (2012) o Transtorno de Pânico (TP) consiste em ataques súbitos e recorrentes de ansiedade, seguidos de preocupação (pensamentos obsessivos) com possíveis novos ataques ou medo do desconforto causado pelas reações fisiológicas intensas que acontecem nos ataques de pânico.

Eles explicam que as terapias comportamentais (AC e TCC) trabalham com diferentes tipos de intervenção em casos de ansiedade, (1) enfatizando aspectos da condição corporal, (2) enfocando relações operantes não-verbais e (3) modificando relações operantes verbais envolvidas (pensamentos).

Yano, Meyer e Tung (2003) explicam que, no processo psicoterápico, precisamos avaliar a frequência de ocorrências dos ataques, os estímulos desencadeantes (gatilhos), pensamentos disfuncionais e esquivas fóbicas.


Assim, as estratégias práticas para lidar com a crise incluem:


(a) “Treino respiratório: a reeducação da respiração é importante, dado que 50% a 60% dos indivíduos que apresentam o quadro de pânico descrevem sintomas hiperventilatórios, como similares aos sintomas de ataque de pânico. Muitas vezes, os ataques são considerados como alterações respiratórias induzidas por estresse que provocam medo, porque são percebidos como amedrontadores ou aumentam o medo já evocado por outros estímulos fóbicos. Vários trabalhos têm mostrado que o controle respiratório diminui os ataques de pânico”. (...)


(b) “Relaxamento: envolve um treinamento em relaxamento muscular progressivo até que haja maior habilidade no uso de procedimentos de controle de estímulos, posto que esta habilidade é aplicada à prática dos itens de hierarquia de atividades provocadoras de ansiedade” (p.130).


Para entender mais como acontece o fenômeno da hiperventilação no TP e sobre a técnica da re-respiração (apresentada no vídeo), além de outros tipos de treino respiratório, confira os links abaixo:

· Psicólogo Diego Falco https://cutt.ly/0ukCXtF

· Medical Media https://cutt.ly/aukCSCn

· Hospital Santa Mônica https://cutt.ly/sukCR6o

· Psicólogo Miguel Lucas https://cutt.ly/2ukBoB6


Atenção!

Os sintomas de pânico são muito parecidos com outros tipos de problemas de saúde, como asma e problemas cardíacos. É muito importante conversar com um médico e fazer exames para certificar-se de que tais crises são apenas reações emocionais.


Contra indicações da re-respiração

Nem toda hiperventilação é causada por transtornos de ansiedade, algumas vezes ela pode ser causada por causas orgânicas que devem ser tratadas por profissionais da medicina, com outros tipos de intervenção, muitas vezes até medicamentosa. Por isso, se tiver alguma dúvida da etiologia das reações hiperventilatórias, procure seu médico.


Relaxamento Progressivo de Jacobson



Como as situações estressantes tem sido frequentes para diversos tipos de profissionais, a introdução do método do Relaxamento de Jacobson é, sem dúvida, a melhor ferramenta para treinar o organismo a se manter relaxado (ou menos tenso) diante de tantos fatores ansiogênicos.

Borges e Ferreira (2013) realizaram uma pesquisa com profissionais da enfermagem que acrescentaram o procedimento de relaxamento em suas rotinas e perceberam grande vantagem no desempenho de suas funções diárias.

“esta técnica consiste num procedimento que visa conseguir a redução dos níveis de ativação, mediante uma diminuição progressiva e voluntária da contração muscular. O seu objetivo é dotar a pessoa de habilidades para controlar a sua própria ativação fisiológica e confrontar as situações que provocam estresse e ansiedade. Com a execução desta técnica muitos indivíduos poderiam se beneficiar ao adquirir a habilidade de relaxar para gerir diferentes situações estressantes na sua vida diária” (Borges e Ferreira, 2013, p. 38).


A seguir, apresento um vídeo com o passo a passo do Relaxamento Progressivo de Jacobson:



Essa técnica pode ser realizada diariamente na cama, ao acordar, ou antes de dormir (caso a ansiedade também esteja acompanhada de insônia). Assim, ensinamos o nosso corpo a se manter relaxado e com a respiração controlada, mesmo em um contexto caótico pelo qual estamos passando.

Outra dica interessante, de acordo com Araújo, Mello e Leite (2007) é a prática regular de exercícios físicos aeróbios que pode “produzir efeitos antidepressivos e ansiolíticos e proteger o organismo dos efeitos prejudiciais do estresse na saúde física e mental” (p. 165). Trocar o elevador pelas escadas ou fazer pequenas caminhadas durante a semana (na sua quadra mesmo), já são suficientes para aumentar o nível de endorfina no seu cérebro e aliviar um pouco da tensão do dia a dia;

Finalmente, é importante lembrar que, apesar das dificuldades, essa é uma situação passageira e que nós, seres humanos, somos uma espécie extremamente adaptativa. Podemos sair de tudo isso, ainda mais fortes e resilientes se ajudarmo-nos uns aos outros e lembrar sempre dos pontos fortes que ainda existem nesse contexto tão incomum.


Uma boa quarentena a todos e até a próxima.


Maíra Matos Costa


Referências Bibliográficas

Araújo, S. R., Mello, M. T. & Leite, J. R. (2007). Transtornos de Ansiedade e Exercício Físico. Revista Brasileira de Psiquiatria. 29(2), p. 164-71.


Batista, J. R. & E. Z. Tourinho (2012). Interpretação Analítico-Comportamental do Autocontrole Emocional. Interação Psicol., Curitiba, v. 16, n. 2, p. 249 – 259, jul/dez.


Borges, E., & Ferreira, T. (2013). Relaxamento: Estratégia de intervenção no stress. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (10), 37-42


Bravin, A. A. & de-Farias, A. K. C. R. (2010). Análise Comportamental do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Análise Comportamental Clínica: aspectos teóricos e estudos de caso. Ed: Artmed.


Fugioka, R. O. & de-Farias, A. K. C. R. (2010). Fuga e Esquiva em um Caso de Ansiedade. Análise Comportamental Clínica: aspectos teóricos e estudos de caso. Ed: Artmed.


Skinner, B. F. (1953). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes.


Yano, Y., Meyer, S. & Tung, T. C. (2003) Modelos De Tratamento para o Transtorno do Pânico. Rev. Estudos de Psicologia, PUC-Campinas, v. 20, n. 3, p. 125-134, setembro/dezembro.


Zamingani, D. R. & Banaco, R. A. (2005). Um Panorama Analítico-Comportamental Sobre os Transtornos de Ansiedade. Ver. Bras. De Ter. Comp. Cogn., vol. VII, n 1, 077 – 092.

 
 
 

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