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Carta aberta à Escola Classe 115 Norte

  • Foto do escritor: Maíra Matos Costa
    Maíra Matos Costa
  • 2 de jun. de 2020
  • 6 min de leitura

Para que serve a educação?

Aos 14 anos, recebi emprestado de uma amiga o livro “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder, que contava a história de uma menina muito curiosa, que descobriu a filosofia através de um amigo-professor. Em um de seus diálogos, eles debatiam sobre o que era a filosofia:


“Vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pelos, lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se agarram com força aos pelos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida:

— Senhoras e senhores — gritam eles —, estamos flutuando no espaço! Mas nenhuma das pessoas lá de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos.

— Deus do céu! Que caras mais barulhentos! — elas dizem.

E continuam a conversar: será que você poderia me passar a manteiga? Qual a cotação das ações hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di está grávida de novo?” .


E foi assim que eu descobri o poder da filosofia e descobri que as crianças estão mais propensas ao conhecimento do que os adultos. Afinal, os adultos são treinados para, de alguma forma, apagar a curiosidade natural que existe na infância.


Certa vez, quando estava no segundo ano do ensino médio, a diretora me chamou até sua sala. Ao chegar à diretoria, lá estava minha mãe, me aguardando na frente de um computador. Na tela, apareciam todos os registros das falhas que tive em sala de aula, tais como:

1) Fechou o livro antes de tocar o sinal;

2) Conversa paralela;

3) Não trouxe o material;

4) Dormiu durante a aula;

5) Não demonstrou interesse em participar da atividade, etc.


Diante de uma lista com mais de 20 itens, a educadora relatou que meus comportamentos não estavam dentro do padrão esperado da escola (um famoso colégio particular de Brasília) e que, se continuasse assim teria muitas dificuldades para seguir no ensino médio.


Naquela hora percebi que os professores reparavam em mim (o que não era de se esperar numa escola com 6 mil alunos e salas de aula lotadas). Eles reparavam em tudo o que eu não fazia e em tudo que eu fazia de errado. E, de alguma forma, certas posturas eram esperadas de mim e consideradas corretas. O curioso é que jamais me perguntavam sobre a minha história, sobre minha família, sobre o que eu pensava ou gostaria de aprender. Tudo o que a gente aprendia era pré-estruturado e padronizado como se fosse subentendido que eu não era um ser capaz de oferecer nada a ninguém, apenas capaz de receber a informação de fora.


A vida foi passando e aquela sensação de inadequação sempre estava ali, me perseguindo no contexto escolar. Veladamente, a escola tradicional conteudista ensina que você precisa mostrar mais, ter mais, ser melhor, passar na frente, se calar, obedecer, copiar, decorar, se destacar, vencer. É como se fosse um código binário: ou você é “zero” ou você é “um”. Se você corresponde às expectativas que colocam em você, você é “um”, se você não consegue seguir o protocolo, você é um “zé-ninguém”.


E assim aprendemos a questionar a nossa autoestima, a nos comparar com os colegas e a observar sempre o que há de errado em nós mesmos, em primeiro lugar. Esquecemos daquela curiosidade que tínhamos na infância e nos rendemos à marcha robótica da vida.


Meu primeiro contato com a psicologia foi numa terapia de grupo, aos 16 anos. A psicóloga me entregou um texto de Nelson Mandela que nos colocava diante de “nosso medo mais profundo”. Segundo Mandela, todo mundo, no fundo, sente medo de ser poderoso e de liberar toda a luz que existe dentro de si. A gente se pergunta “’Quem sou eu para ser brilhante, belo, talentoso, fabuloso?’ Na verdade, quem é você para não ser?” (...) “Nascemos para expressar o brilho que há dentro de nós. Ele não está em apenas um de nós, está em todos nós. E a medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente permitimos que as outras pessoas façam o mesmo”.


Esse texto esteve colado em minha escrivaninha por anos. Então, decidi aprender, no estudo da psicologia, como poderia ensinar às pessoas a entender que essa luzinha está ali, dentro delas. E que ela sempre estará ali, iluminando o mundo, mesmo que ela ainda não a perceba.


Em cada existência do planeta, existe uma sabedoria, uma percepção, uma contribuição para que o mundo seja mais humano e belo.


Com a chegada da maternidade, assim como com “O Mundo de Sofia”, tudo se desmoronou. Lembrei de Sócrates e percebi que “eu nada sabia”. Quem diria que aquele cidadão recém-chegado ao mundo tinha muito mais a me ensinar do que qualquer outro ser que já havia conhecido?


As crianças são os que mais longe conseguem ver “fora do pelo do coelho”. Elas têm uma luz poderosa e uma pureza contagiante. Elas fazem perguntas desconcertantes e se encantam com tudo ao redor. Segui o conselho de Mandela e me contaminei com aquele brilho que vinha de dentro dele.


Me aventurei por várias escolas, na busca de uma educação libertadora para meu filho e acabei chegando na Escola Classe 115 Norte. Nela, compreendi o imenso valor da escola pública e da força feminina que comanda uma grande instituição. Muita gente junta comprometida em compartilhar e usufruir da sabedoria de uma comunidade inteira. Tudo o que é nosso, da nossa cultura e da nossa gente é valioso. Nossas raízes indígenas, africanas, a música brasileira e toda nossa cultura popular permeiam os ares daquele ambiente. Nessa escola, aprendi que mostramos resistência cultural quando unimos todos os nossos diversos saberes e valorizamos o que somos.


Aquelas mulheres abriram as portas para mim e me disseram “sim, nós estamos interessadas pela sua história, pelo seu conhecimento e pelo o que você tem a oferecer”. Nessa escola, ninguém é “zero”, todo mundo é “um” e juntos, somos mais poderosos ainda.

Então, com a ajuda de muita gente boa, desenvolvemos o projeto das “oficinas temáticas”. As famílias invadiram a escola com toda a sua boa vontade e se abriram para o processo de ensinar-aprender no contato direto com as crianças.


Partindo principalmente do interesse livre das crianças em estar na turma da oficina, elas se tornaram protagonistas da própria educação. Os conteúdos foram apresentados de forma concreta, lúdica e com materiais e ambientes não convencionais.


O cubo mágico e a cozinha experimental foram os temas nos quais eu me dediquei e, a cada experiência semanal, observei as crianças eufóricas, curiosas e abertas para o que a gente estava apresentando. As atividades exigiam concentração e aos poucos elas foram ganhando autoconfiança, persistência e autoestima. Elas adoravam relatar suas histórias, criar vínculos e conversar. Ao dialogar e debater com os colegas, ganhavam habilidades sócio-emocionais suficientes para assumirem, também, o papel de professor. Elas tinham lugar de fala, tinham voz e muito conteúdo para compartilhar.


Juntos, percebemos que o papel do professor é grandioso e poderoso. O professor é a pessoa que se doa todos os dias para fazer brilhar ainda mais forte a luzinha que existe dentro de cada criança. E as crianças percebem, rapidamente, o seu inestimável poder quando um adulto dá voz a ela e a escuta.


Contudo, fica a pergunta: para que serve a educação? Diante de tantas experiências, aprendi que a educação não é sobre estar na frente ou chegar primeiro. Não é uma competição e nem muito menos suprir expectativas daqueles que não enxergam nada em você.



Educação é sobre ser apenas você, com a toda a sua luz livre para brilhar. É ensinar as pessoas a se libertarem de seus medos e se negarem a ser outra coisa, a não ser elas mesmas.


Obrigada Escola Classe 115 Norte.

Maíra Matos Costa


Dica de Leitura



O Mundo de Sofia

Editora: Cia. das Letras

Autor: Jostein Gaarder

Categoria: Filosofia

Em correspondência com um misterioso major que faz perguntas filosóficas, Sofia descobre o maravilhoso mundo da Filosofia e aprende coisas sobre si mesma, sobre o mundo e sobre a vida. De maneira leve, porém intensa, o livro faz uma excelente introdução ao conteúdo dos mais importantes filósofos da história.












 
 
 

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