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Projeto das Oficinas Temáticas na Escola Classe 115 Norte

  • Foto do escritor: Maíra Matos Costa
    Maíra Matos Costa
  • 1 de jun. de 2020
  • 15 min de leitura

Atualizado: 7 de dez. de 2020

O relato de uma bela experiência


Era o início de mais um ano na comunidade escolar 115 norte quando decidi me aventurar no trabalho junto às comissões da escola. Minha jornada pela psicologia me fez perceber que todas as pessoas têm algo de bom a oferecer ao mundo e que, juntas, nossa sabedoria pode ser o verdadeiro diferencial na educação de nossos filhos. Por isso, decidi compartilhar um pouco dos meus conhecimentos com as crianças e botar a mão na massa.

A comissão de Comunidade de Aprendizagem (CAP) surgiu com o objetivo de dar apoio à gestão escolar, realizando mapeamento de talentos dentro da comunidade, a fim de melhorar a qualidade do ensino-aprendizagem das crianças. Quando cheguei nesse grupo, a ideia das oficinas já existia, mas faltava gente para colocar em prática e fazer a ideia crescer. Uma das colaboradoras do projeto já contribuía com seu trabalho há algum tempo na 115, dando aulas de Yoga para as crianças, mas em 2019 a oficina dela ganhou uma nova roupagem que ficou bem interessante.


A ideia era ajudar a colocar em prática alguns dos valores existentes no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, como “liberdade, responsabilidade e autonomia” na educação das crianças. Para esse grupo de familiares, em parceira às profissionais da escola, a educação deve ser libertadora, no sentido de que a criança pode compreender o seu potencial, desenvolver autoestima e autoconfiança na busca pelo conhecimento. O interesse pelo mundo, pela relação com as pessoas e o desenvolvimento de valores éticos, acontece naturalmente quando a criança se sente livre para aprender e nossa proposta era mostrar a elas que isso era possível. Buscamos nos desvincular da sala de aula tradicional, ao inovar com diferentes materiais de estudo, ambientes não convencionais, metodologias ativas e na promoção do amplo diálogo.


Além da CAP, também me voluntariei para trabalhar na Comissão de Alimentação da escola. Ao debater propostas para melhorar a consciência nutricional dos alunos, tivemos a ideia de desenvolver uma cozinha experimental, onde as crianças poderiam aprender conteúdos relevantes durante práticas de culinária natural. Assim, me propus a passar meus conhecimentos sobre culinária vegana, junto com outras mães e voluntárias externas. Dessa forma, nós faríamos uma interface das duas comissões, promovendo a atividade gastronômica (Comissão de Alimentação) como uma oficina da CAP.

Outra ideia que apresentei foi a Oficina de Cubo Mágico. Eu, como uma profissional da área de humanas, nunca tive muito apreço pela lógica e pela matemática. Mas um belo dia, decidi, por conta própria, me desafiar a aprender sobre a montagem do cubo mágico. Fiquei surpresa com a extrema facilidade do meu aprendizado diante de algo que era interessante pra mim. E com isso, o despertar para a educação inovadora surgiu em meus mais novos estudos. Completamente apaixonada por vários os tipos de cubo mágico, decidi, então, me aventurar a compartilhar esse pequeno e recém-conhecimento. Como ainda me considerava uma iniciante no assunto, seria uma aprendiz ensinando a aprendizes. Não seria lindo?


Em meados de março, apresentamos o projeto escrito para a direção, que se mostrou sempre aberta às nossas ideias. Durante o período que se deu de março à agosto, tivemos diversas reuniões sobre como implementar as oficinas que seriam:

1) Cozinha Experimental;

2) Cubo Mágico;

3) Futebol e

4) Yoga.


Entendemos na prática, com muitos tipos de sacrifício, que ter ideias é fácil, executar é que são elas. Toda a gestão de grupos, o encaixe das atividades com a rotina das professoras, os dias da semana disponíveis, cumprimento de horários, planejamento dos cronogramas, compra de materiais, diálogo com as famílias, entre outros; foram nossos maiores desafios na implementação do projeto.


Para dialogar com os pais e coletar feedbacks, sugerimos a realização de um Piquenique Culinário, onde apresentamos nossas ideias sobre as oficinas e os oficineiros puderam falar diretamente com outros membros da comunidade sobre suas propostas. Com isso, a comunidade aprovou nossas ideias e prosseguimos as atividades.

Oficina de Cubo Mágico

1. Objetivos:

Promover integração da comunidade, colocar a criança como protagonista da própria educação, ensinando autonomia de pesquisa, liberdade e responsabilidade. Desenvolver habilidades como: resiliência, paciência, atenção, tomada de decisão, raciocínio lógico-matemático, coordenação motora, entre outras.


2. Metodologia:

a) Grupos mistos e ciclo de aulas: com idades misturadas e partindo principalmente do interesse livre da criança em estar na sala de aula, os conteúdos foram apresentados de forma concreta, lúdica e com materiais não convencionais. A conversa durante a aula era liberada e incentivada entre as crianças, que usufruíam dessa liberdade sempre que podiam.

Em grupos de 14 crianças, os alunos inscritos iniciavam um ciclo de cerca de 8 aulas até a montagem completa do cubo. Ao término deste ciclo, um rodízio com novos grupos de crianças inscritas acontecia até que todas fossem contempladas até o fim do ano.


b) Cubo Mágico e financiamento do projeto: Distribuímos um cubo mágico no modelo 3 x 3 x 3, para cada criança levar pra casa. Ter o seu próprio cubo foi crucial para que a criança pudesse treinar em casa e ter intimidade com o objeto. Parte dos cubos foi doada por mim e os outros vieram com a contribuição dinheiro da Associação de Pais e Mestres (APM). As famílias que pudessem, também poderiam contribuir financeiramente com uma ajuda de custo para a continuação do projeto.


c) Atividades e participação das famílias no grupo do WhatsApp: A cada aula, a criança levava para casa “O Mapa do Cubo”, uma atividade impressa com os passos aprendidos em sala de aula. Os familiares das crianças inscritas acompanhavam o desenvolvimento da oficina em um Grupo do Whatsapp chamado “Oficina de Cubo Mágico”, administrado por mim. Lá eu costumava mandar avisos, lembretes, vídeos tutoriais, cartilhas e tirava dúvidas sobre a oficina e sobre a montagem do cubo. Acredito que esse grupo foi um dos maiores diferenciais da oficina, já que o apoio e participação da família no processo de aprendizagem da criança são essenciais para o amadurecimento dela no contato com o brinquedo. Sempre tinha um papai, mamãe ou vovó compartilhando experiências, fotos e fazendo perguntas. Foi um canal de diálogo e aproximação das famílias, o que fazia com a que as crianças se sentissem ainda mais motivadas a aprender.


d) Monitoria: Na oitava aula do ciclo, algumas crianças já começavam a demonstrar segurança e domínio na montagem do cubo. Então, esse era o momento em que ela passaria para uma nova etapa de aprendizagem: ensinar o colega. Cada criança que montava o cubo ganhava um crachá de “monitor” e assumia junto comigo o front da sala de aula. Elas se dividiam em vários pontos da mesa e ajudavam uns aos outros. Assim, algo revolucionário estava acontecendo, a criança passava a ser protagonista da própria educação, ganhando voz, desenvolvendo responsabilidade e amadurecendo as relações com diferentes crianças da escola. Ganhar um crachá de monitor era algo emocionante para todo mundo. Era o momento mais aguardado. As crianças vibravam e se enchiam de orgulho ao desfilar com o crachá pela escola. Esse reconhecimento não representava apenas um prêmio (que pudesse gerar competição), ele representava a conquista de um ciclo de persistência e assim, a criança poderia ganhar um lugar de fala ativo, ou seja, poderia assumir o papel de professora e ensinar seus colegas (gerando colaboração).


3. Efeito Cubo Mágico

“Isso é impossível pra mim”, “jamais conseguiria montar um negócio desses”, “eu sou burro pra essas coisas, prefiro nem tentar”...

Essas são algumas das falas que eu escutava semanalmente dos adultos que entravam na sala de cubo mágico. Sempre que eu ouvia isso, não conseguia parar de pensar: da onde vem essa percepção de incapacidade? Por que os adultos são tão resistentes a aprender coisas novas e a se desafiarem? Afinal, aquele era apenas um quebra-cabeça com uma lógica específica, não tem nada demais.


O cubo mágico foi criado por um arquiteto húngaro, Erno Rubik, em 1974, mas virou febre mundial nos anos 80 e, assim como a matemática e a lógica, passou a carregar a fama de ser um jogo tão difícil, que era quase impossível de resolver. Porém, as crianças não vieram dessa época, muitas nunca tinham visto um cubo mágico na vida. Para elas, é apenas um brinquedo diferente, um objeto curioso e fascinante. As crianças têm extrema facilidade para se abrir a novos conhecimentos e não têm medo de tentar. A convivência com elas nos ajuda a tirar um pouco dessas travas emocionais diante do novo. Quando vimos uma pessoa de apenas 6 anos dominando um objeto temido por adultos, isso nos encoraja e nos faz questionar “por que eu não seria capaz disso também?”. Sempre que possível, eu puxava um desses adultos temerosos e botava uma criança para ensinar o passo a passo a eles. E os resultados foram impressionantes. Não raro, escutava relatos de famílias se aproximando e adultos aprendendo a aprender com seus filhos.


Desde o início do nosso trabalho, aquele brinquedo diferente causou euforia na escola. Todo dia tinha alguém atrás de mim perguntando “tia, quando eu vou poder participar?”. A animação foi tanta que os cubos passavam de mão em mão e acabavam sempre caindo e se espatifando no chão. Em momentos como esses, víamos mais uma oportunidade de desenvolver resiliência e cuidado com o próprio material. Era tanto cubo quebrado que acabei montando o famoso “kit de primeiros socorros do cubo mágico”. Nele eu guardava ferramentas e peças de cubos quebrados para reaproveitar na remontagem de outros cubos. Com um tempo, as próprias crianças aprenderam a reconstruir seus cubos e ensinavam umas as outras.


Certo dia, na segunda semana de oficina, senti falta de um aluno que tinha aparecido na primeira aula. Era um dos meninos mais interessados na atividade e demonstrou muita alegria ao ganhar um cubo mágico. Percebi que ele estava presente na escola aquele dia, mas faltou apenas à atividade de cubo. Aproveitei a hora do recreio para ir conversar com ele.


- Fulano, por que você não quis participar da oficina hoje?


- Ah tia! Eu tenho medo das crianças grandes... Não quero ficar na turma da sala amarela.


Depois disso, uma das professoras me contou que ele sofria um pouco de bullying das crianças da sala amarela e era muito difícil a interação entre eles. Sendo assim, perguntei se ele gostaria que eu o ensinasse no recreio e ele topou na mesma hora.

Os dias foram se passando e ele sempre vinha me procurar mostrando o que aprendeu sozinho e com os vídeos que eu mandava grupo do WhatsApp. Ele evoluía rápido, fazia perguntas e compartilhava sempre seus conhecimentos com os colegas. Um belo dia, ele dando pulos de alegria me mostrou o cubo todo montado.


- Tia, olha só! Eu montei o cubo! O cubo todo sozinho!


Meu Deus, como foi emocionante aquele momento! O olhar de uma criança conquistando algo é impagável. Então eu disse:


- Parabéns querido! Você é fera! Isso foi resultado da sua persistência, estou muito orgulhosa! Agora eu quero te convidar pra um lugar, vem cá...


Então, eu o levei até a sala de cubo mágico e disse:


- Agora você é o professor! Você vai ensinar os seus colegas!


Diante das “crianças grandes da sala amarela” ele demonstrou passo a passo o que aprendeu e todas se abriram imediatamente pra ele. Todas se mostraram interessadas e à partir desse momento um vínculo novo se formou. Ele perdeu o medo daquele grupo e os “grandes” agora passaram a respeitá-lo como alguém que tinha algo a oferecer a eles.

O efeito dessa troca de papéis era impressionante para quem passava na porta da nossa sala. Eu que, inicialmente assumi o papel de lecionar lá na frente, no final do semestre, passei a ter apenas um papel coadjuvante no ensino do cubo mágico. Servia apenas como uma adulta responsável para supervisionar as crianças que se ensinavam por conta própria. Algumas crianças se destacaram pela liderança na condução das atividades com os colegas. Elas se mostravam proativas na colaboração em chamar as crianças na sala, imprimir papéis, apresentar conteúdos, escrever no quadro. O ambiente se tornava cada vez mais calmo, o tom de voz foi abaixando e o diálogo foi se tornando cada vez mais presente. As crianças amavam ensinar umas a outras e com isso, desenvolviam empatia solidariedade e cumplicidade entre si.


O processo de montar um cubo mágico representa muito mais do que a simples vitória de um jogo, ele representa o desenvolvimento de sentimentos como: autoconfiança, autoestima, habilidades sócio-emocionais, comunicação, desapego e coragem na resolução de problemas. Na oficina de cubo, as crianças aprenderam a falar, expressar seus sentimentos, escutar o outro e compartilhar seus conhecimentos. Segundo Freire (1968/2014), o diálogo representa a essência da educação como prática da liberdade.


“Não é no silencio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação--reflexão.” (...) “Dizer palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens”. (...) “Não há também diálogo, se não há uma imensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens” (p. 90 e 91).


Cozinha Experimental

Foi na Comissão de Alimentação que uma mãe apresentou essa proposta: realizar uma cozinha experimental para as crianças desenvolverem diversos tipos de conhecimento relativos à alimentação, saúde, meio ambiente, entre outros.

Muitas ideias tinham sido colocadas, mas essa me pareceu a solução perfeita para abarcar grande parte dos valores existentes na 115. Como, havia um tempo, eu já vinha me dedicando aos estudos da culinária vegana (até desenvolvi um blog sobre o assunto) me sentia segura para passar adiante meus conhecimentos culinários. Eu, como psicóloga, me sentia capaz de compreender o quão terapêutico pode ser sovar a massa de um pão e, como cozinheira amadora, pude perceber que o ato de cozinhar nada mais é do que amor ao próximo, a si mesmo e ao planeta. Ao cozinhar, compreendi que produzir um alimento tem muito a dizer sobre nossa cultura local, nosso paladar, nossa consciência nutricional e que, tal atividade pode ser uma grande aliada na introdução de hábitos alimentares mais saudáveis. Segundo Morgado, F. (2006), as escolhas alimentares, por serem experiências aprendidas, fazem com que a familiaridade com o alimento seja um fator preponderante para sua aceitação e, assim, gostar do que está disponível se torna muito mais fácil. Para ela:


“a escola é indiscutivelmente o melhor agente para promover a educação alimentar, uma vez que é na infância e na adolescência que se fixam atitudes e práticas alimentares difíceis de modificar na idade adulta. A finalidade da educação alimentar é transformar o alimento em um instrumento pedagógico, transpondo os limites do ato alimentar, fazendo com que este se transforme em um ponto de partida para novas descobertas” (p. 8).



Foi seguindo essa filosofia que, junto com outras mães e mais duas colaboradoras externas, formamos um time da cozinha experimental. Depois de meses debatendo ideias, testando receitas, bolando um cronograma que se adequasse a rotina das professoras, desenvolvemos o nosso projeto inicial.

1. Objetivos

Diversificar e estimular o desenvolvimento no processo pedagógico das crianças, por meio de ambiente e atividades não convencionais. Desenvolver habilidades sociais, autoconhecimento, autoestima, paciência, conscientização sobre a alimentação e respeito à natureza; desenvolver autonomia culinária, consciência nutricional, além de noções matemáticas, de ciências e língua portuguesa.


2. Metodologia

Seguimos a mesma lógica da oficina de cubo: grupos mistos, liberdade, responsabilidade e autonomia em todas as nossas práticas educacionais. A escolha das receitas foi um dos principais tópicos de nossas reuniões. Pensamos em fazer uma atividade 100% inclusiva, em todos os aspectos. Por isso optamos por receitas que fizessem parte do universo das crianças e que tivessem menos resistência da parte delas. Além disso, tivemos o cuidado de apresentar receitas que qualquer criança pudesse comer, caso houvesse algum tipo de restrição alimentar, então fechamos 4 receitas veganas e sem glúten, que foram:


(1) Cookie de abóbora com coco;

(2) Pão de beijo (batata doce);

(3) Brigadeiro de biomassa de banana verde e

(4) Nuggets de lentilha.


As atividades culinárias aconteciam sempre às quartas-feiras, com turmas de 12 e 14 alunos cada, de manhã e de tarde. E as colaboradoras se revezavam em duplas para que uma guiasse a aula e a outra ficasse no apoio (pré-preparo, lavar louça, porcionar os ingredientes e etc.).

Dividimos a atividade nas seguintes etapas:

a) Roda de conversa inicial: momento de acolhimento, de trocar experiências e histórias sobre a realidade alimentar das crianças. Fazíamos perguntas como “o que vocês mais gostam de comer?”, “quem sabe que alimento é esse?”, “quem costuma cozinhar em casa com a família?” e explicávamos qual seria a receita do dia e fazíamos combinados. Antes de começar a cozinhar sempre repetíamos o nosso lema “eu prometo experimentar tudo o que eu cozinhar”.


b) Confecção do alimento: As crianças se dividiam em 4 grupos e partilhavam os afazeres culinários. Cada um tinha o direito de colocar um pouco de cada ingrediente e se revezavam na mistura ou sova da massa. Muitas vezes, elas se organizavam espontaneamente “vamos dividir 10 segundos para cada um mexer?” e contavam em coro “1, 2, 3, 4...”.


c) Atividade lúdica durante a espera: Enquanto o alimento assava no forno, esse era o momento para fazer atividades ou dinâmicas a fim de despertar paciência, autoconhecimento, cumplicidade, amor ao próximo, consciência alimentar e ambiental. As crianças fizeram desenhos, visitaram a horta, fizeram arranjos com flores, dinâmicas psicopedagógicas e conversavam em roda.


d) Degustação e conversa de feedback: o momento mais esperado do dia era a degustação do alimento. Cada um recebia seu prato, degustava e compartilhava o que sentia. A maioria dos feedbacks foi positiva e muitas crianças de outras turmas apareciam curiosas pela atividade. No final de cada ciclo, fazíamos um brinde com água saborizada, feita com ervas da horta da escola, e celebrávamos todas as nossas conquistas, gritando em coro “viva a cozinha experimental!”.


3. Efeito Cozinha Experimental

Para atingir nosso objetivo, despertar valores éticos e de autonomia, utilizamos o diálogo como ferramenta em todas as etapas do processo. Queríamos escutar as histórias das crianças e conhece-las um pouco mais. Já viu lugar melhor para conhecer uma pessoa do que uma cozinha e uma mesa?

“Considerada um fator vital e uma fonte de prazer e de partilha, a alimentação é muito mais do que apenas nutrientes: tem um significado muito próprio para cada pessoa e grupo, constituindo um traço de identidade” (Loureiro, 2004, p. 43).

Assim, fizemos um espaço para que as crianças pudessem falar, ouvir, compartilhar sentimentos e se empoderar através da habilidade da colaboração. Percebemos que muitas delas tinham bastante informação sobre o que comiam, sabiam o que era um agrotóxico, o que tinha dentro de produtos industrializados e, a grande maioria, demonstrava interesse em consumir alimentos naturais. Observamos também que algumas crianças tinham realidades bem diferentes uma das outras, muitas cozinhavam desde cedo com a família, outras não sabiam nem o que era uma abóbora. Conversamos sobre a origem cultural dos alimentos, o que cada família comia no café da manhã e, assim, nos conhecemos melhor.


Desde a compreensão da origem do alimento, o cuidado com a horta, a produção, até a organização e limpeza do ambiente, foram temas abordados com as crianças. Em todas as rodas de conversa, muitos dedinhos se levantavam a espera de compartilhar suas perspectivas sobre a alimentação e, com isso, nossa oficina acabou tendo, em grande parte, um foco bastante emocional.


Certa vez, ao começar os procedimentos para a confecção do pão de beijo, apresentamos o modelo de como precisaríamos sovar a massa do pão. Nesse momento, uma criança se mostrou bastante apreensiva e falou “não quero sujar minhas mãos na massa”, cruzou os braços com uma expressão brava e se recusou a fazer a atividade. Eu, calmamente, respondi:


- O que houve querida? Não tenha medo, é divertido sujar as mãos, olha só que lindas as bolinhas que seus colegas estão fazendo!


Mesmo assim, ela ficou irredutível, subiu na cadeira, fechou a cara e nem sequer olhava para o alimento. Então eu disse:


- Tudo bem! Fique à vontade para participar quando quiser e se não quiser tudo bem, a gente compreende que para você ainda é difícil esse processo.


Ela demonstrou surpresa ao fato de eu não me opor à resistência dela, afinal, ela estava livre para fazer o que tivesse vontade. Ela olhou a atividade de cima da cadeira, escutou relatos dos colegas como “tia, olha que linda a nossa bandeja” e observou como seus amigos estavam se divertindo com aquela atividade. Na semana seguinte ela chegou muito mais aberta na roda inicial. Relatou suas experiências e se mostrou muito mais concentrada nas orientações.

A receita daquela semana seria o brigadeiro de biomassa (outra atividade para sujar as mãos), e ela, prontamente, assumiu a liderança e perdeu o medo de botar a mão na massa. Com as mãozinhas untadas, caprichou nas bolinhas de brigadeiro. Na roda de conversa final, ela relatou ter sido a melhor receita de todas e que faria em casa novamente, junto com a família.


Vivenciamos muitas histórias de conquistas sócio-emocionais das crianças. Os relatos, desenhos e vínculos gerados naquela atividade são tantos que não caberiam neste relato. A experiência que tivemos na cozinha da 115, me proporcionou, também, uma extrema admiração por todas os profissionais da merenda. Afinal, a infinidade de habilidades e a disposição que uma merendeira escolar deve ter não são nada triviais. Quem conhece algum cozinheiro profissional, sabe muito bem que a cozinha e os objetos dele fazem parte de um território que não é qualquer um que pode invadir. Mesmo assim, apesar de alguns desafios iniciais, fomos sempre muito bem recebidas por todas as profissionais da cozinha escolar. Grandes mulheres que cuidam com muito carinho da alimentação dos nossos filhos.


Finalmente, posso dizer que ninguém saiu a mesma pessoa depois da realização desse projeto. Ajudamos a dar mais um passo na construção de uma comunidade de aprendizagem e pretendemos colaborar por muito mais tempo ainda. A ideia é deixar o legado de que a educação é muito mais eficiente quando família e escola se unem e quando todos aprendem a construir juntos, dialogar e respeitar uns aos outros.


“Essa malha de relações assegura aquele mínimo vital e cultural que assegura a sobrevivência, e é no espaço regido por tais relações que se desenvolve a vida associativa, desfruta-se o lazer, trocam-se informações, pratica-se a devoção. Onde se tece, enfim, a trama do cotidiano.” (Chauí, M. 19.86)


As oficinas mostraram que a escola pode ser mais relevante em seus próprios territórios, aprendemos a articular com a comunidade e construir uma rede de apoio. Com profissionais internos que são solucionadores de problemas, aprendemos a transformar nossas vidas, nosso grupo e nosso mundo. Educar é aprender, aprender é resistir. Vida longa às oficinas temáticas da Escola Classe 115 Norte.


Meus mais sinceros agradecimentos a:

Gabriela Fronzaglia e Layse Guimarães (minhas grandes parceiras de oficina);

Ana Inês (chef de cozinha colaboradora externa);

Martha Caldas, Marta Scardua, Célia Guimarães, Natália Duarte, Renata Lima (direção e equipe da escola);

Maria Rita e Rosamaria (merendeiras);

Cíntia, Valquíria, Antônio e Silvia (oficineiros da escola).

A todas as professoras e outros profissionais que fazem aquela instituição existir e resistir com todo carinho e dedicação!

Por: Maíra Matos Costa

Referências Bibliográficas


Chauí, M. (1986). Conformismo e Resistência. São Paulo (SP): Ed. Brasiliense.


Freire P. (1968/2006). Pedagogia do oprimido. 44ª ed. São Paulo (SP): Paz e Terra.


Loureiro, I. (2004). A importância da educação alimentar: o papel das escolas promotoras de saúde. Revista Portuguesa de Saúde Pública, vol. 22.


Morgado, F. (2006). A horta escolar na educação ambiental e alimentar: experiência do Projeto Horta Viva nas escolas municipais de Florianópolis. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências Agrárias (monografia de graduação do curso de Agronomia).



Conheça também


O belíssimo trabalho da engenheira florestal Layse Guimarães pela página https://www.instagram.com/jardim_dos_saberes/




A lindeza do trabalho da chef de cozinha Ana Inês pelo site https://cozinhadominichef.com.br/




Visite o site da Escola Classe 115 Norte, Brasília - DF, pelo link https://escolaclasse115norte.org.br/



Projetos em desenvolvimento

Estante Cultural Colaborativa

Sabe uma excelente forma de incentivar as crianças a lerem? Dar, você mesmo, um bom modelo a elas.

Quando os adultos se mostram interessados pelos livros, os pequenos logo se interessam e acabam querendo repetir o exemplo.

Foi por isso que a Comissão de Aprendizagem da E.C. 115N desenvolveu a Estante Cultural Colaborativa.

Inspirada na parada cultural do T-bone, essa estante foi feita pata compartilhar leituras entre famílias da escola. Qualquer membro da comunidade pode mexer, olhar, pegar um livro e simplesmente levar pra casa.

A ideia é promover integração através do compartilhamento de livros sobre temas relevantes para a educação inovadora e, juntos, formar uma sociedade com mais leitores!


Dica de Leitura


Conformismo e Resistência

Autora: Marilena Chauí

Categoria: filosofia e ciências sociais

Editora: brasiliense

"Debruçando-se sobre a questão da cultura popular no Brasil, a autora refuta a ideia simplista de que esta seja uma totalidade fechada e monolítica que se contrapões à cultura ilustrada".

Excelente literatura para compreender o valor cultural de cada grupo étnico brasileiro.





 
 
 

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